quinta-feira, 1 de julho de 2010

Bomba relógio

Data: 01/07/2010

Por: Jessé Souza (FOLHABV)


Tudo indica que a questão das crianças e adolescentes não está incomodando as autoridades que, por obrigação, deveriam ao menos esboçar preocupação. Estive por três noites no Parque Anauá, onde ocorria o arraial junino, e pude perceber que existe uma bomba sendo construída para explodir em um curto espaço de tempo.
Escolhi o melhor local para observar: ao lado do palco dos shows, local onde gravitam garotos e garotas de não mais 14 anos de idade, os quais fazem questão de estar em grupos bem visíveis. Não são poucos. São dezenas deles prontos para arranjar qualquer confusão, a maioria ingerindo bebida alcoólica na frente da polícia e dos guardas municipais.
O mais impressionante é que eles não vão para esses locais para se divertir, paquerar, dançar ou conhecer novas pessoas. Como se fosse uma atitude masoquista, havia uma disputa entre eles para ver quem levava mais abordagem e safonão dos policiais militares.
A diversão dos grupos que ali estavam era contar para o outro o número de vezes que foram abordados pelos policiais, como se isto fosse uma grande vantagem entre eles. Se pegasse um empurrão, um tapa nas costas ou algo parecido, a vantagem de contar era maior. E as garotinhas que os acompanhavam também se divertiam com isso.
Um fato é preciso destacar. A Polícia Militar estava fazendo sua parte, realizando abordagem constante, revistando e até mesmo reunindo grupos inteiros num local afastado da festa, para avisar quais eram as regras ali, a fim de evitar um confronto ou confusão generalizada. E houve noites em que a festa teve que acabar mais cedo por causa das confusões que eles promoviam.
Enquanto a polícia agia, nenhum órgão ligado à infância estava ali para apreendê-los e levá-los ao menos para a delegacia, onde esses adolescentes deveriam ficar esperando a chegada de um responsável a fim de buscá-los, que por sua vez deveriam ser chamados na responsabilidade.
Do Juizado da Infância, com seus agentes de proteção, à Delegacia da Infância, não havia um representante para ajudar a PM a completar o serviço de abordagem e prosseguir com a apreensão dos que ali estavam bebendo e desacompanhados em horário inadequado.
O número de meninas com cara de criança andando em bando e acompanhadas desses adolescentes também é grande. É como se estivéssemos assistindo ali um futuro perdido daquelas garotas, as quais facilmente podem engrossar as estatísticas da marginalidade, prostituição, criminalidade ou do desemprego.
O Estatuto da Criança e do Adolescente é claro ao determinar que, na falha dos pais e da sociedade, é o Estado o maior responsável por fazer cumprir a lei. A PM estava lá, no Parque Anauá, agindo ostensivamente (algumas vezes até demais), no entanto ficava um trabalho pela metade, em que sobra um sentimento de impotência desses policiais sem apoio dos órgãos de proteção da Infância.
Da forma como esta realidade se desenha, com esses garotos e garotas na permissividade das ruas, sem qualquer programa social que os alcancem na infância e depois na adolescência, o fenômeno das galeras vai estourar a um nível jamais visto em Roraima.
Hoje são adolescentes levando uma dura da PM. E amanhã, o que pensar desses garotos e garotas? Que sociedade estamos construindo ou deixando ser construída? Com que sentimento estão crescendo esses garotos, sem perspectivas de vida, odiando a sociedade que os exclui e os policiais que o abordam duramente? A bomba relógio está acelerada...

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Os comentários publicados neste blog deverão ser identificados, não sendo mais permitidos comentários anônimos. Para poder comentar você deve fazer parte deste blog clicando em "CADASTRE-SE NO BLOG - Fazer parte deste site".

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.