quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Anomia e Polícia Militar

“Durante todos esses anos enquanto policial, nunca tive essa sensação. Não sei para onde a instituição está indo, não sei qual será nosso futuro”. Já ouvi essa afirmação, e variações pouco diferentes dela, de vários policiais com muitos anos de serviço. Esse sentimento de estar “a deriva”, de não perceber uma “identidade” no seio da organização em que vive pode ser definido em uma palavra, cunhada por Emile Durkheim e reformulada por vários autores, denominada “Anomia”.

O que é Anomia?

Para que o leitor se situe, deixo três significados de Anomia, conforme o sociólogo Robert Bierstedt definiu, que abrange bem, e de forma simples, nossos objetivos:

1. Desorganização pessoal do tipo que resulta em um individuo desorientado ou fora da lei, com pouca vinculação a rigidez da estrutura social e suas normas;
2. Situações sociais em que as normas estão elas próprias, em conflito, e o individuo encontra dificuldade em seus esforços para se conformar às exigências contraditórias;
3. Ausência de norma, ou seja, situação social que, em seus casos limítrofes, não contém normas.

O termo é muito discutido e reformulado nas ciências sociais, possuindo significações agregadas a ele conforme as intenções de cada autor. Para nós, as três vertentes acima são suficientes (suspeito que para os policiais militares que me lêem será até mais do que suficiente).

Transição na sociedade brasileira

Temos pouco mais de duas décadas de democracia no Brasil. Isso significa que ainda não a temos efetivamente, tomando “democracia” como um ideal a ser alcançado, e que no decorrer do tempo um país vai se aproximando ou afastando, conforme as posturas dos governos e das sociedades. Vivemos um período de transição, onde fora dado um golpe na tradição autoritária que sempre, mais ou menos, prevaleceu na relação entre as instituições públicas e os cidadãos.

Eis que rompemos com todos aqueles valores tradicionais, ou melhor, criamos um símbolo para representar a insatisfação com o que estava estabelecido, a Constituição Federal Cidadã. Mas uma sociedade não se faz com uma lei, pelo menos não apenas com ela. Uma sociedade se caracteriza por aspectos eminentemente culturais, daí temos a flagrante contradição entre o que é feito e o que é dito (legalmente, inclusive) como correto.

Surge um efeito que podemos caracterizar como anômico: a indefinição da postura a ser adotada, uma extrema desorientação de conduta. O que fazer, se o que temos como correto e legal é muitas vezes vergonhoso, desvantajoso ou inaplicável, enquanto o que está em desacordo com a norma parece muito mais sedutor e coerente?

 

Desorientação na PM

 

Se há uma instituição que sofre com o fenômeno da anomia, esta é a Polícia Militar. O que percebemos de maneira ampla na sociedade como um todo, nas PM’s isso se potencializa porque sempre fomos uma instituição eivada de normas, valores e princípios – todos eles tradicionalíssimos. A sociedade mudou, anseios democráticos/cidadãos/humanitários foram estabelecidos. Conceitos de gestão foram renovados, a definição de profissionalismo foi reestruturada, porém, a Polícia Militar, como a maioria das organizações, não assimilou bem toda essa enxurrada cultural.

 

Por que sofremos mais? Porque tínhamos, e temos, uma carga maior de normas e valores para abandonar, conforme o que a sociedade pretende, do que as demais instituições. É assim que nos vemos sem saber ao certo “como controlar a tropa”, já que os métodos anteriormente empregados para tal objetivo são quase que inaceitáveis nos dias atuais. O homem operacional chega à omissão, pois teme “os Direitos Humanos”, uma vez que a cultura truculenta precisa ser abandonada, mas não lhe foi ensinado, ao certo, como trabalhar de outro modo.

Quantas contradições do tipo existem na Polícia Militar? A relação entre a mídia e a PM está eivada de expressões da anomia em que vivemos, algo não menos perceptível quando estamos lidando com outras organizações estatais.

* * *

O fato é que vivemos um momento de transição, onde alguns abraçam o passado com medo das mudanças, enquanto outros aderem incondicionalmente a elas, que representam mais o que não queremos do que o que queremos efetivamente. É impossível romper com o passado de maneira brusca e repentina, mas é preciso certa urgência em abandonar posturas inaceitáveis que ainda cultuamos. Torço para que este estado de contradição e descarrilamento dure o mínimo possível, e novos horizontes surjam com definições claras do nosso papel, missão e tipo ideal de profissional. Enquanto isso não ocorre, vamos continuar com “várias polícias dentro de uma só”.

PS: Esse é um tema com várias possibilidades de exemplos e abordagens, de modo a ser bem difícil escrever algo suficientemente adequado. Fica para o leitor a missão de assimilar e extender os entendimentos a sua realidade.

 

Autor: Danillo Ferreira

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